sexta-feira, 25 de julho de 2014

Lésbicas, novela e o machismo evidente

Olá galera, a matéria de hoje fala sobre a rejeição dos casais gays que vivem iguais aos heterossexuais, ela foi publicada na revista fórum por Marcelo Hailer em maio deste ano. Vale a pena ler e refletir a respeito.

Sempre que o ibope de uma novela da Rede Globo não decola é de praxe que a emissora coloque nas ruas uma equipe para dialogar com a população e buscar entender o que está dando certo e o que está dando errado. Foi o que aconteceu durante a transmissão da novela “Em Família”, de autoria de Manoel Carlos. Entre as várias questões tratadas na pesquisa, destaque para a trama de Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Muller).

De acordo com a pesquisa descobriu-se que a maioria do público aprova a relação entre Clara e Marina, porém, não querem que as duas vivam como um casal heterossexual, ou seja, não querem vê-las acordando juntas, se beijando e trocando afeto, daí que podemos induzir um forte grau de repulsa por parte do telespectador naquilo que diz respeito a outras sexualidades possíveis, bem como um forte grau de machismo e conservadorismo. Por mais que se higienizem os corpos abjetos, a rejeição ao afeto homossexual ainda é muito forte. Tudo bem duas mulheres da classe média, brancas, magras, femininas serem amigas, daí querer viver como “heterossexuais”, não pode.

A pesquisa revela algo muito importante: superado o tabu do beijo, entra-se na fase do “viver como”, é como se as pessoas que se entendem como heterossexuais dissessem: este tipo de vida não é pra vocês. O que também denota um forte conservadorismo contraditório. Parte dos sujeitos que vive dentro da norma sexual aponta aqueles fora da norma como pessoas “imorais”, “promíscuas” e por aí abaixo, mas, quando uma telenovela resolve tratar de um casal lésbico que vive no padrão heteronormativo, causa rejeição. Porém, esta rejeição tem endereço e gênero.

Em 1998 a novela “Torre de Babel”, de Silvio de Abreu, passou por um drama parecido, mas com desfecho trágico. O casal formado por Silvia Pfeifer e Christiane Torloni, que vivia um cotidiano dentro da norma sexual gerou forte reação negativa e o autor não teve dúvida: na explosão do shopping eliminou as duas. De lá pra cá se passaram 16 anos e sabemos que Clara e Marina tiveram um desfecho diferente.

Agora chama a atenção que casais homossexuais masculinos não causem tal rejeição, isso se tratando de casais que vivem juntos e tomam café da manhã. Lembremos de “Paraíso Tropical”, de Gilberto Braga, com o casal Rodrigo e Tiago que, mesmo masculinizados levavam um cotidiano normativo com direito a troca de carinhos e discussão na cama. E mais recentemente Felix e Niko, não moravam juntos, mas as cenas entre os dois eram pra lá de íntimas e afetivas. E conquistaram todo o público.


O que Marina e Clara deixam claro é que, nem na novela o destino da mulher pode ser autônomo e muito menos fora do esquadro da família margarina. E o público só passou a apoiar Clara porque o seu marido está em um flerte com a médica que fez o transplante de seu coração. Ou seja, agora que ele encontrou outra mulher, Clara pode se jogar no romance com Marina. Não há exemplo mais objetivo do que este para entender do que se trata a estrutura heteronormativa. Homens vivendo juntos pode, mulheres não. Aqui o machismo não é latente, é evidente. Homens vivendo juntos pode, mulheres não.

M.A.

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