sexta-feira, 13 de junho de 2014

Diferente da multidão


Tudo pode começar tão cedo...

Na escola já me sentia diferente das outras meninas, não só porque gostava de futebol ou desenhos animados de lutas, a maioria dos meus amigos eram meninos, não sei ao certo o motivo, mas eu me sentia muito mais a vontade com eles. Em casa, ao invés das bonecas, galhos de árvores se transformavam em espadas, latas de alumínio eram os mais potentes foguetes e garrafas serviam como ótimos aviões. Nunca me importei com maquiagem ou roupas, aliás, eu odiava comprar roupas, talvez porque minhas roupas na época eram cor-de-rosa e cheias de brilhos e lacinhos. Minha mãe dizia que eu era o filho que ela não teve, afinal era bem diferente das minhas irmãs, (e tem pessoas que ainda acreditam que tudo isso é influencia). Só que mais tarde esse meu lado começou a incomodar meus pais, afinal eles acreditavam que quando eu crescesse tudo voltaria ao “normal”.

Na adolescência (que é um período dito como complicado para todos) comecei a me importar com esse meu jeito “diferente”, talvez por não me sentir mais tão incluída entre os meninos e por nunca ter aquela afinidade com as meninas (afinal, elas só sabiam falar sobre os meninos gatinhos, suas maquiagens e bolsas novas...)

A preocupação da minha mãe nessa fase foi redobrada, não media esforços para me tornar mais “feminina”, mesmo assim eu não largava a minha velha bola de futebol (minha grande paixão), entretanto tive que ceder um pouco numa tentativa desesperada de ser incluída em algum grupo. Foi nessa fase que comecei a falar de meninos (como se eu realmente me importasse com os gatinhos da sala).
Na minha cabeça era como se eu tivesse que gostar das coisas que as meninas gostavam, mesmo assim não conseguia disfarçar ter os gostos mais semelhantes aos meninos, todos percebiam, todos falavam isso e eu me importava tanto com o que os outros pensavam que acabei por um tempo fingindo ser e gostar de coisas que não gostava.

Impossível falar sobre a adolescência e não comentar sobre a nossa primeira paixão não é mesmo? Obviamente eu tive um amor, um amor diferente. Sabe aquela menina linda que entra na turma no começo do ano e todos os meninos se apaixonam? Pois é, eu também me apaixonei. No começo confundi com uma amizade muito forte, mas totalmente diferente das outras amizades. Foi aí que comecei a descobrir o que eu realmente era, apesar de negar muitas e muitas vezes a mim mesma. Quantas vezes entrei escondido na internet para pesquisar: “meninas que gostam de meninas” ou algo do tipo, sendo que essa era a única forma que eu consegui para esclarecer algumas das minhas dúvidas. Tinha medo de contar para alguém, acho que cheguei até a ter vergonha de mim mesma por ser assim e passei a acreditar que tudo seria uma fase.


Mas aos poucos aprendi a lidar com a situação, conheci meninas que também eram assim, consegui dar o meu primeiro beijo, levei o meu primeiro fora, tive o primeiro namoro, senti ciúmes, tive a primeira briga, o primeiro fim de um relacionamento, as primeiras lágrimas... (obviamente tudo com meninas) e hoje posso dizer que me aceitei por completo. Não me sinto nem um pouco inferior, muito menos diferente, para falar a verdade nunca me senti tão eu mesma na vida inteira. As pessoas mais próximas de mim já sabem, já consigo falar abertamente sobre isso. Apesar de tudo também tive algumas perdas: “amigos” me deixaram por eu ser assim, meus pais e minhas irmãs no fundo sabem, mas não querem admitir pra si mesmos que eu sou assim, talvez ainda não me aceitem, sei que é difícil para eles também, mas deixarei isso para o tempo resolver, pois aprendi a ter paciência e acreditar que tudo tem a hora certa para acontecer.

M.A.

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